sábado, dezembro 18, 2010

O Jogo do Século

Confesso para todos vocês, eu tenho o pior emprego do mundo. Sim eu sou um goleiro. Não que ser goleiro seja a pior profissão do mundo. O problema é o time com quem você trabalha.

Meu time não era ruim, longe disso. Para ficar ruim ainda tínhamos que treinar muito. E vocês já pensaram quem é que sempre sofre em um time ruim? Vocês já viram um atacante levar uma bolada no rosto? Estou falando de bola de futsal! Pesada!

Enfim, nosso time de futsal (o antigo futebol de salão) participava de um torneio patrocinado pela nossa empresa. Jogávamos a segunda divisão, não por sermos ruins, mas por ser nosso primeiro ano de participação. Todos no time estavam muito animados antes do torneio! Chegamos a rodada final como um dos favoritos! Favoritos ao último lugar da competição.

Duas derrotas e um empate (aproveitamento de 11%). A última rodada jogaríamos apenas para cumprir tabela. O adversário? Um dos líderes invictos do grupo. Isso não podia dar certo.

O César, o Tales e eu chegamos atrasados para o embate e encontramos com o Mario na entrada do ginásio. O jogo iniciaria as sete da noite, mas a equipe só conseguiu entrar em quadra as sete e dez. Eu esperava já encontrar metade da equipe em quadra. Encontrei um único jogador, o Cordeiro, que pelo menos já estava vestido. Assim que nos viu ele nos saldou:

– Estamos perdidos! Só nós vamos jogar! Não temos nenhum reserva!

– Não veio ninguém mais? O Marcelo, o Ernesto, o Lívio, o Denis? Nada deles? – perguntei porque se não tivéssemos o mínimo de jogadores, seríamos banidos do torneio, inclusive para o ano seguinte.

– Não cara! Eu inclusive tava na arquibancada esperando vocês e ouvi o pessoal do outro time dizendo que se eles nos vencerem por 15 gols de vantagem ficam na liderança! – o Cordeiro parecia assustado.

– Quinze gols! – o César também parecia assutado.


– Galera é o seguinte. O jogo já vai começar. Vamos armar uma retranca, jogar fechado e torcer para eles só começarem a fazer gol depois de cansarmos. O bom é que sem ninguém no banco, não tem esporro em quem esta quadra – disse o Tales.

Lá estávamos nós, aguardando o início da partida. Eu no gol. O Tales, que também era goleiro, jogando improvisado na defesa. Junto com ele o Cordeiro, que ainda não estava nas suas melhores condições físicas. Na frente, mas não tão na frente assim, Mario e César.
O jogo começou. Logo no começo, o time adversário começou pressionando, mas estávamos aguentando bem. Não atacávamos, mas o time adversário não conseguia chutar. Quando de repente algo estranho aconteceu.

Peguei a bola para bater um tiro de meta. Olhei para o meio campo e vi o Mario sozinho com um marcador. Joguei a bola na direção dele. Ele se livrou da marcação e chutou.

– É!!!!! – o Cordeiro gritou.

– Gol porra! – o Tales completou. Vale ressaltar que o Tales estava gritando para

– Gol? Estamos ganhando? – o César parecia não acreditar!

– Vamos lá pessoal! Não vamos perder de zero! – eu gritei de otimismo.

Tomamos conta do jogo, porém o que mais temíamos aconteceu. O time cansou. Lembro de ter perguntado para o árbitro quanto tempo faltava para acabar o primeiro tempo.

– 15 minutos? Só jogamos 5 minutos? – parecia que o jogo era em La Paz, na altitude, todos no time estão sem ar.

– Vamos pedir tempo com 10 minutos – o Mario já tinha acertado isso com o árbitro.

O jogo continuou rolando. Alguns minutos após minha conversa com o juiz, fizemos mais um gol. O César recebeu no meio e chutou sem ângulo. Nenhum dos 3 espectadores acreditava no que estava acontecendo.

Aos dez minutos de jogo pedimos tempo. Tínhamos dois minutinhos para tomar um ar. Passamos um minuto respirando e antes de alguém falar:

– Galera, agora os caras vão virar, mas fizemos bonito – disse o sempre otimista Cordeiro.

– Vamos segurar o jogo – disse o ofegante Mario.

Voltamos à quadra. Alguns minutos após esse retorno, num escanteio o goleiro deles marcou um gol. Sim, goleiro deles, algum problema?
Com todos do time mortos, falei pro pessoal se poupar. Num contra-ataque rápido o Tales resolveu lançar uma bola pro Cordeiro. Que pena eu senti do Cordeiro. A bola correndo e ele atrás. Parecia uma cena de “Carruagens de Fogo”. Ele correndo em câmera lenta e o resto do time gritando: “Não! Esquece a bola!”.

Enfim, o primeiro tempo já ia terminando e, Deus sabe como conseguimos fazer mais um gol, graças ao César.

Final do primeiro tempo: 3x1. Fomos para o banco de reservas. Pela primeira vez na competição ninguém falou no banco de reservas. Não porque estávamos jogando bem, e sim porque estávamos todos sem ar. Lembro de ter pensando nas discussões que o time tinha no intervalo e como isso atrapalhava a equipe. Pela primeira vez agradeci de não termos reserva naquela partida.

Voltamos para o segundo tempo. A tática era simples: Não desmaiar durante o segundo tempo. Nossa meta era jogar que nem a Argentina: Se alguém espirrar do nosso lado a gente cai sentindo lesão.
Logo no começo do segundo tempo, o time adversário, bem descansado (eles tinha 3 reservas para o jogo), fez seu segundo gol. Percebi que ali começaria o declínio da equipe.

Para a minha surpresa, três minutos após o gol, nós aumentamos o placar. O César, sempre num contra-ataque aumentou a nossa vantagem. Uma ponta de esperança surgiu. Mas o jogo ainda estava complicado. Todos estavam estafados. Em um determinado momento, lembro de ter defendido uma bola no pé do jogador adversário e ao levantar vi o Tales olhando para o cara e gritando:

– ÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉ!

– Gente boa, poupa teu fôlego que ainda faltam uns 15 minutos de jogo! – disse para ele.

– Relaxa. Estou apenas apelando para o emocional deles.
Alguns minutos depois desse papo o time deles reduziu o placar. Lance rápido, dois contra um, não tínhamos o que fazer. O placar marcava 4x3. Nesse momento o Mario virou e disse:

– Quando você pegar a bola, olha para mim. Eu vou apontar para onde você tem que jogar a bola. Fechado?

– Fechado! – respondi.

Não deu outra. Na jogada seguinte um jogador chutou fraco. Peguei a bola e vi o Mario marcado apontando para a direita. Não hesitei e joguei a bola. O Mario se livrou da marcação e chutou.

– Gol! – apenas o Tales gritou. Todos estavam completamente sem ar.

O placar marcava 5x3. Era a hora de segurar o jogo. O time adversário atacava de forma incisiva. Comemorávamos cada lateral que tínhamos em nosso favor. Era uma oportunidade única para descansarmos.

– Tempo! – Gritou o Mario.

E mais uma vez fomos para o banco tomar um ar. Dessa vez ninguém falou nada. Foi o minuto mais silencioso da partida.
No retorno a quadra, percebemos que a equipe adversária estava nervosa. Faltavam 10 minutos e eles tinha que atacar com força máxima. Foi num desses ataques que aconteceu o que pode ser descrito com um lance bizarro.

Ao cobrar no rebote de uma cobrança de escanteio, o camisa 9 do outro time deu um chute seco no canto. Defendi com o pé, mas a bola ainda estava muito forte. A bola esbarrou no pé do Mario, bateu em sua mão e antes dela cair ele chutou em direção ao gol. O goleiro adversário, aquele que fez o gol, estava adiantado, tentando marcar outro gol e só pode olhar para a bola entrando calmamente em seu gol. 6X3 para nosso time.
Um milagre estava ocorrendo. Mas ainda faltavam 8 minutos. Logo depois do nosso último gol, o time deles endoido. Todos vieram para o ataque! Eles conseguiram tirar dois gols de diferença. Um gol foi na sorte e outro numa “sapatada” de fora da área indefensável. O jogo estava 6x5 e ainda faltavam cinco minutos.

Foram os três minutos mais longos da história. Lembro que tivemos um lateral em nosso favor e antes de cobrar o Cordeiro veio falar comigo:

– Para onde eu mando essa bola cara?

– Mira no lugar mais difícil de pegar a bola e manda lá. Assim a gente ainda ganha um tempo.

E foi isso que ele fez. O César foi tentar pegar a bola pra facilitar, mas foi empurrado pelo goleiro e caiu no chão. O juiz não marcou nada. Ele sabia que o César caiu para ganhar tempo. Mas na saída de bola do time deles, defendi um chute de uma maneira não ortodoxa. A bola estourou nos meus “países baixos”. Fiquei no chão por quase um minuto antes de levantar. Quando olhei para a quadra, todos estavam abaixados, respirando.

E assim o jogo seguiu. O time adversário atacando impiedosamente, até faltarem 30 segundos para o fim da partida.
Lancei uma bola para frente. Já não tinha ninguém mais lá, mas joguei para fazermos cera. O goleiro deles lançou uma bola no pé do seu pivô. Ele armou para o chute. Mas nates de chutar, o Mario cometeu uma falta nele. Nossa única falta no jogo. Eles tentaram bater rápido, mas o César ficou na frente da bola para impedir a cobrança.

PIIIIIIIII! Apito final. Todos os jogadores do nosso time foram ao chão. Ninguém comemorou porque nos faltava ar para gritar. A galera na arquibancada que já aguardava o jogo seguinte gritava nossos nomes!

Só conseguimos comemorar a vitória dez minutos após o término da partida. Conseguimos transformar a adversidade em vitória, o cansaço em fôlego, o álcool em água (na comemoração no boteco). Foi assim que cinco cachaceiros de marca maior, se tornaram heróis da maior batalha do século! Ao resto do time, resto do time, sobrou o consolo de saber que participaram de uma equipe vitoriosa, mesmo sem provar o sabor da vitória.

terça-feira, março 16, 2010

Próxima estação...

Não estava acostumado a andar de metro, mas o que eu podia fazer? Estava voltando pro serviço depois do meu almoço. Almoço? Usei minhas duas horinhas para tirar meu passaporte naquela maldita segunda-feira chuvosa. Por que diabos eu fui fazer esse documento tão longe?

A ida até que foi tranqüila. Sai na hora do almoço. Só a viagem no metro levava 45 minutos, isso apenas um trecho. Feliz da vida, cheguei ao meu destino final, o posto de atendimento da Polícia Federal!

— Puta que o pariu! — repeti como se fosse um mantra.

— Algum problema meu filho? — me perguntou uma simpática senhora.

— O posto de atendimento da PF está fechado!

— Sim meu filho, hoje é dia do servidor público. Todos estão aproveitando o feriadão!

— Não acredito que eu perdi meu almoço vindo até aqui pra encontrar este posto fechado! — chutei a porta de entrada.

Nesse momento, com a serenidade que só os anos de labuta, sofrimento e aprendizagem, a velha senhora coloca sua mão no meu ombro, como que para me consolar e diz:

— Bem feito. Quem mandou ser ignorante e não ler o jornal! Pessoas como você é que deixam o país do jeito que está!

Após falar isso ela continuou sua longa caminhada pela rua. Agora veja você! Que velha escrota! Eu perco meu almoço, faço uma puta viagem em vão pra pegar meu passaporte e ainda tenho que ouvir uma velha louca falar que o país esta na merda por minha causa!

— Velha safada! — gritei, mas eu acho que além de louca a velha era surda.

Me recompus. As pessoas na rua começaram a me olhar estranho depois que eu comecei a gritar com aquela senhora. Queria ver se eles tivessem feito a viagem que eu fiz, se eles estariam me olhando assim.

Resolvi tomar um táxi até o metro. Sim, tive que pegar um táxi da estação do metro até o posto, pois a distância era longa. E onde eu encontrava táxi? Em lugar nenhum! Resolvi pegar o ônibus. Ah, ônibus! Que sensação ótima era estar no ônibus. Aquele odor, que só se encontra nas suaves manhãs dos aterros sanitários.

Finalmente cheguei na estação. Passei pela roleta e estava aguardando a composição chegar. Não demorou muito. Entrei no vagão. Não estava cheio, mas também não tinha lugares para eu me sentar. Resolvi escutar um pouco de música, afinal, precisava me acalmar.

A viagem transcorria na mais perfeita paz. Um simpático senhor estava ao meu lado lendo o caderno de esportes do jornal. Pelas batidas que ele dava no jornal, acho que o time dele não ganhou. Uma senhora estava sentada com sua filha, que devia ter uns 7 anos, discutindo com ela as notas que a menina tirava no colégio. Naquele instante a composição havia chegado numa estação.

— Desembarque pelo lado direito — cheguei a ouvir o condutor falando, apesar da música alta em meus ouvidos.

Na estação, como de praxe no horário de retorno ao trabalho, muitas pessoas entraram no vagão. Uma em especial me chamou a atenção. Tratava-se de uma senhora, já com seus 60 anos e que tinha uma grande dificuldade para andar. Fiquei penalizado, pois vi que os assentos destinados a idosos estavam ocupados por pessoas igualmente idosas e uma gestante.

As portas já estavam se fechando quando a gestante, num gesto de cidadania se levantou para que a senhora sentasse. A senhora sentou. Então, de repente, esta mesma senhora virou-se para o banco de trás, onde estavam mãe e filha discutindo o desempenho escolar da menina, e perguntou:

— Com licença?

— Pois não — a mulher respondeu num tom rude.

— A sua filha não poderia sentar no seu colo para que essa jovem grávida possa se sentar? — a senhora perguntou.

— Não — respondeu a mulher — minha filha pagou a mesma passagem que a senhora e que a jovem. Ela tem todo o direito de viajar sentada.

Eu sei que a mulher falou tão alto, que um grupo de jovens estudantes que conversavam interromperam o papo para ouvir a discussão. Era tudo o que faltava. Tudo tinha dado errado e eu ainda tinha que ver uma louca dando ataque no metro! Eu mereço.

— Mas a questão não é dinheiro — a senhora voltou a responder — é cidadania. Sua filha pode muito bem viajar no seu colo, cedendo lugar para a jovem!

— Não! Ela pagou a passagem que nem todo mundo aqui — ela fez um gesto apontando para todos — e vai viajar sentada.

— Deixa pra lá — respondeu a gestante — minha estação não demora a chegar.

— Tudo bem — respondeu a senhora virando para a mulher no banco de trás — Mas por causa de pessoas como à senhora que esse país está assim.

Porra! Era a segunda vez que eu ouvia uma senhora falando isso! Comecei a achar que além do dia do servidor público, era também o dia dos velhos reclamarem do país. Eu não me importei dessa vez, já que o papo não era comigo, mas a mulher... Notei uma veia surgindo na testa dela. Lembro de ter pensado: “Agora fodeu”.

— Eu faço um país pior! Minha filha pagou a passagem igual a todos aqui!

— E a educação? Ficou aonde? — gritou um homem no fundo do vagão e a confusão se generalizou!

— Eu paguei a passagem da minha filha! Ela tem direito! — nesse momento a menina começou a chorar.

— Você está vendendo a educação da sua filha pelo preço de uma passagem! — gritou uma mulher na parte da frente do vagão.

— Eu não estou vendendo nada! Eu paguei a passagem! Ela tem direito! — acho que a mulher não sabia o que dizer e resolveu repetir sempre a mesma frase. Notei que os estudantes estavam rindo copiosamente da situação.

— Deixa ela sentar — agora gritavam em coro os passageiros.

— Não! Ela tem direitos! — a veia ficava cada vez maior.

— Mal educada! Mal educada! — os estudantes resolveram tomar partido na briga.

— Vocês calem a boca! Vocês nem passagem pagaram! — eu estava esperando a hora que a veia ia começar a gritar junto com a mulher!

— Pi-ra-nha! Pi-ra-nha! Pi-ra-nha! — a molecada não perdoou.

E o que começou com uma pequena discussão sobre um lugar pra sentar tomou proporções homéricas! Todos gritando para que deixassem a grávida sentar e a louca da veia na testa gritando: “Ela pagou!”. No meio da confusão que ficou instalada, o senhor que lia o jornal do meu lado, em um momento em que a sapiência tomou conta de seu ser, disse em voz baixa, para que só eu pudesse ouvir:

— É um péssimo momento para se estar sóbrio.

— Concordo — respondi guardando meu tocador de músicas.

— Por que ela não deixa a grávida sentar? O que aconteceu com o povo desse país?

As palavras daquele senhor mexeram comigo. Lembrei-me da velha safada que disse que o país estava daquele jeito por minha causa que eu resolvi tomar uma atitude.

— Chega! — gritei, e todos pararam para prestar atenção em mim.

— Mas minha filha...

— Eu sei! A senhora já repetiu 347 vezes isso!

— Iiiiiiaaaaaaaaeeeeeee — gritou um dos estudantes.

— Parem com isso! — gritou a senhora. Sua filha chorava cada vez mais.

— Eu tenho uma proposta para fazer para a senhora — eu disse.

Nesse momento, todos dentro da composição resolveram parar para ouvir minha proposta. Os estudantes se calaram, a velha e a gestante estavam de olhos arregalados e o velho ao meu lado guardou o jornal.

— Proposta? Quem você pensa que é para fazer uma proposta para mim?

— Me escute. Eu lhe dou uma nota de cinco, se a senhora colocar sua filha no colo e deixar essa jovem gestante sentar.

— Aceita! Aceita! — gritavam os estudantes

— Não aceito — disse a senhora — você acha que eu vou vender o conforto da minha filha por uma nota de cinco?

— Eu ainda não acabei! Eu lhe dou uma nota de 20 se a senhora ceder o lugar da sua filha e ficar calada até chegarmos a sua estação.

— Aceita logo, sua louca! — veio uma voz do final do vagão!

— Você pensa que pode comprar meu silêncio? — não sei se quem falou isso foi a senhora ou a veia na testa dela.

Percebi que o trem começava a desacelerar. Ele estava chegando na próxima estação.

— Bom, minha última oferta, se a senhora descer na próxima estação, nos dando o privilégio de sua ausência, a senhora ganhará uma nota de 50.

Puxei uma nota de 50 e mostrei para ela. A tensão tomou conta do vagão. A senhora e a filha se calaram. O velho ao meu lado olhava a nota. Um dos estudantes já puxava um celular para fotografar a cena. A composição parou na estação.

— Então? Vai sair com esta nota e nos deixar em paz, ou vai ficar aqui atrapalhando o silêncio da nossa viagem?

As portas do vagão se abriram. A senhora arregalava os olhos para aquela nota de 50. Os estudantes falavam baixo. A tensão era alta. “Pega a nota e vai embora”, dessa vez a voz veio do meio do vagão.

— As portas vão fechar! É agora ou nunca! — eu disse.

O sino indicando o fechamento das portas soou. Como uma flecha a senhora pegou o braço da filha com uma das mãos e a nota de 50 com a outra mão e saiu da composição. Ao ver que estavam livres, os passageiros começaram a gritar:

— Até nunca mais!

— Tchauzinho sua louca!

— Vai pela sombra, Piranha!

Essa última frase incitou os estudantes, que começaram a gritar em coro novamente:

— Pi-ra-nha! Pi-ra-nha! Pi-ra-nha! Pi-ra-nha!

A composição partiu da estação, mas a festa no vagão continuou. A jovem grávida se sentou no lugar da menina. No lugar da louca sentou o senhor que estava ao meu lado! Todos vieram me cumprimentar. Os estudantes, entusiasmados, gritavam como uma torcida organizada:

— Oo! A piranha vazou! A piranha vazou!.

No meio daquela festa, a senhora, aquela que ficou no lugar da grávida e iniciou a balburdia, levantou-se. Me cumprimentou e disse bem baixinho para que apenas eu pudesse ouvir:

— Se o país tivesse mais jovens como você, certamente seríamos o melhor país do mundo. Obrigado! — e terminou dando um beijo na minha bochecha.

Pronto. Ganhei o dia! E só me custou uma notinha de 50!

domingo, janeiro 03, 2010

Até o Momento!

Madrid! A segunda cidade mais bonita do mundo!

sexta-feira, janeiro 01, 2010

2010 - Um Sinal

Não sou de acreditar muito em sinais (desde o filme do Mel Gibson). Porém ontem, perto das 20:30, eu estava indo para a casa da minha namorada para celebrar o reveillon, quando um menino, de no máximo 9 anos, carregando equipamento de engraxate, passou por mim e disse:

- Feliz ano novo senhor!
- Feliz ano novo pra você também - respondi.

Ele me disse isso com tanta alegria, que eu pensei "Se alguém, com uma vida sofrida como a dele, pode passar por um desconhecido e desejar um feliz ano novo de coração, eu acho que a humanidade não está tão perdida quanto eu pensei que estivesse..."

Abraços e Feliz 2010 para todos os 3 leitores deste blog!


quarta-feira, outubro 07, 2009

Gi

Era dia 29, uma noite quente de sexta-feira, uma bela noite por sinal. Não se via uma única nuvem no céu da capital. Eu estava esperando por Giselle, Gi como eu a chamava, simplesmente a mulher mais linda que já havia visto. Nós iríamos jantar num dos locais mais bonitos da cidade.

— Dessa vez eu não vou deixar a timidez tomar conta de mim! — repetia para mim mesmo — não vou! — talvez se eu repetir isso bastante minhas mãos parem de tremer.

Ela não chega, porque será? Acho que eu vou mandar uma mensagem para ela. “Onde você está?”. Mandei a mensagem e já estava esperando uma respostado tipo: “Esqueci de te avisar, marquei de levar uma surra de um PM, e não posso me atrasar pra esse compromisso”. De repente o telefone toca:

— Alô — atendi.

—Oi! Já estou chegando aí no seu bloco — a voz dela é linda.

— Ufa!

— Você falou alguma coisa?

— Eu não, deve ter sido alguma interferência, esse meu celular é uma merda de se falar — especialmente quando minha mão está tremendo.

— Chego aí em 5 minutinhos!

— Ok! — uma sensação de alívio tomou conta do meu corpo, mas as mãos tremiam.

Pontualmente 7 minutos atrasada, ela apareceu na porta do meu bloco. Entrei no carro. Ela parecia um anjo que tinha ido me pegar para jantar. Acho que fiquei uns 3 minutos parado olhando para ela, até que ela resolveu puxar assunto:

— Oi moço — ela me deu um comportado beijo na bochecha.

— Oi Gi.

Não conseguia parar de olhar para ela. Ela estava usando um vestido preto. Linda, não havia melhor palavra para descrevê-la.

— Você está meio monossilábico hoje né?

— É o tempo seco — menti, eu suava feito um louco.

— Hum, sei. Vamos então?

— Vamos — de repente o vento ajuda a secar minha camisa suada.

Foi uma viagem curta de carro, o restaurante era relativamente perto de casa. Não conseguia puxar muitos assuntos com ela. Maldita timidez!

Não era a primeira vez que eu saia com ela. Já tinha ido ao cinema, a shows, festas, barzinhos, até um jogo de futebol fomos ver na casa de um amigo. Mas nunca tive a coragem de dar um beijo em seus belos lábios, não por falta de vontade, mas sim por causa daquela maldita vozinha na minha cabeça que dizia: “Ela vai te dar um fora, ela é areia demais pro teu caminhão. Quem você acha que é? Bono Vox?”.

— Chegamos, onde vamos jantar? — ela perguntou.

— Que tal aquele restaurante alemão? Lá a comida é boa e o chopp é ótimo.

— Boa idéia.

Sentamos no restaurante, e começamos a conversar.

— To impressionada como não nos encontramos antes — trabalhávamos na mesma instituição financeira — você não acha?

— Sim, mas o que você não sabe é que eu já fui pro seu aniversário e você não lembra disso.

— Sério? Quando?

— Uns dois anos atrás, você fez seu aniversário com uma amiga minha, eu fui pra festa, mas você nem me notou...

— Certamente você também nem prestou atenção em mim também!

— Aí que você se engana, lembro de ter comentado com um amigo meu o quão bonita você estava.

— É mesmo, e o que ele respondeu?

— Nada, tava em coma alcoólico.

— Você é um bobo.

Depois de alguns minutos de conversa, minhas mãos pararam de tremer. Notei o quão fácil era conversar com a Gi. Além de bonita, inteligente, tudo o que eu sonhei. Dava gosto conversar com ela, apesar de as vezes eu me perder no papo, apreciando sua beleza.

— A conta por favor! — ela pediu para o garçom.

Comecei a suar novamente. Sabia que a hora estava chegando. Não ia estragar tudo dessa vez. Estava num lugar romântico, com uma mulher linda, se eu deixar ela escapar nunca irei me perdoar!

O garçom trouxe a conta. Nem olhei quanto foi, passei no cartão de crédito. A única coisa que eu preocupava era como eu ia conseguir trazer a Gi pra minha vida. Foi então que uma luz desceu sobre a minha cabeça e me veio uma idéia.

— Vamos dar uma caminhada? —perguntei para ela.

— Vamos, aqui é tão bonito.

— Então vamos — eu pensei que talvez, com menos gente em volta minha timidez passasse.

Foi uma caminhada curta, mas para mim parecia uma eternidade. O que eu vou fazer? O que eu vou falar? E se ela disser não. Será que ela vai falar não?

— Sua mão ta suando — ela disse.

— É sempre fica assim depois que eu como alguma coisa — eu não acredito que eu disse isso...

— Sério? — ela arregalou os olhos.

— Na verdade não, eu não sabia o que falar e falei isso.

— Hehe, adoro esse seu humor espontâneo — o sorriso dela me trouxe uma paz de espírito fenomenal.

— Sabe, você está linda hoje. Não sei se já disse isso.

— Sim, já disse umas 17 vezes, mas pode continuar dizendo.

— Posso te perguntar uma coisa?

— Pode.

Não perguntei, simplesmente abracei-a e beijei seus lábios. O mundo parou. Parou porque sabia que algo especial estava acontecendo. Parou porque era um momento que valia a pena ser apreciado cada segundo. Parou porque eu consegui beijar a mulher mais linda do mundo.

— Gostei desse beijo — ela disse.

— Eu também — disse o homem mais feliz do mundo, e com o maior problema de sudorese também.

— Eu achei que você nunca fosse me beijar.

— Nunca é muito tempo, eu só precisava de um pouquinho de coragem, além do que, quer um lugar mais lindo do que esse para nosso primeiro beijo?

— É verdade.

E a partir daquele beijo meus problemas nervosos acabariam. Eu sabia que não precisava mais me preocupar com solidão, timidez ou o que fosse. Eu consegui! Dei um beijo na mulher mais linda do mundo, não quero mais nada na minha vida! Apenas Giselle. Minha flor, minha vida, minha princesa....

sexta-feira, outubro 02, 2009

segunda-feira, setembro 28, 2009

Escrevendo

de repente hoje ainda publico algo