- Merda, esqueci a luz ligada. Vou ter que levantar e apagar. Que sono, não são nem seis da manhã.
Abro os olhos. Não estou em casa. Onde eu fui parar? Acordei na rua outra vez? Aqui parece até um daqueles condomínios de luxo, tem até um portão dourado ali na frente. Acho que vou ali na guarita, de repente o cara tem o telefone de um táxi.
- Bom dia meu nobre!
- Bom dia meu filho! Seja bem-vindo ao...
- Eu sei, eu sei. Olha só, eu estou com um pouco de pressa. O senhor poderia me dizer se existe algum ponto de táxi nas redondezas?
- Você sabe com quem está falando, meu filho? O que você diz de um senhor de barba, na frente de um portão com uma chave no pescoço?
- Papai Noel porteiro?
- Não és muito de religião, eu presumo.
- Na verdade, não senhor. Mas sou um grande adepto de dois santos.
- É mesmo? Que bom! E, quais seriam esses santos?
Comecei a reparar que o dia estava meio enevoado, estranho para essa época do ano.
- São Duíche quando eu estou com fome e São Risal quando eu estou de ressaca.
- Vejo que seu senso de humor não se alterou depois de tudo o que aconteceu.
- Como assim? O que aconteceu? - Eu devo ter feito alguma besteira outra vez.
O bom velhinho saiu de trás da guarita, parou do meu lado, colocou a mão no meu ombro e disse:
- Você morreu, meu filho.
- Morri? - Agora fodeu! Será que ele consegue ler meus pensamentos?
- Morreu, você bebeu demais na festa ontem. Seu organismo não aguentou.
- Eu sabia que um dia a bebida ia me matar, mas eu sempre achei que seria um caminhão de cerveja.
- E agora? Já sabes com quem está falando?
- São Pedro, certo?
- Exato. E sabes o que nós vamos fazer agora não é?
- Vamos ver. Está na hora de pagar pelas besteiras que eu fiz certo?
- Certo! Deixe-me pegar seu livro da vida. Aguarde um pouco.
- Beleza São Pedro, prometo que não vou a lugar nenhum.
- Que bom que ainda guardaste teu bom humor. - Espero mantê-lo após o julgamento.
Enquanto São Pedro ia pegar a minha passagem para o inferno, resolvi dar uma olhada em volta. Realmente tinha muita névoa, algo estava errado. Cara, os portões do céu são grandes. Ouro maciço, benza Deus! Opa, blasfemei! Merda, eu sou um caso perdido mesmo. Deixa eu tentar ver o que tem ali dentro. Olha, anjinhas ruivas! Nossa, que anjinhas! Droga, nem no céu eu consigo parar de pensar besteira. Estava tentando ver novamente as anjinhas quando aquela voz grave falou:
- Venha meu filho, está na hora de vermos como foi sua vida. - Será que eu tenho direito à um advogado?
- Sim senhor. Esse livro aí é todo meu? - Parece até a lista telefônica!
- Sim filho. Então, por onde queres começar. - Essa é mole.
- Família!
- Hum! Deixa eu procurar aqui na letra F. Felicidade, folia, fornicação, - quando São Pedro falou essa última palavra senti um frio na espinha, foi quando reparei que não tinha espinha. - aqui, Família.
- Então São Pedro, o que diz aí nos autos do processo?
- Aonde meu filho?
- No livro.
- Claro, claro. Aqui diz que você foi um bom filho, bom irmão, bom neto, bom sobrinho. Mas não fala nada de filhos ou esposa.
- Não deu tempo São Pedro.
- Já que estamos no tocando assunto falemos de suas mulheres. - Danou-se.
- Aqui, meu filho, diz que você teve muitas namoradas.
- Isso é uma meia-verdade São Pedro.
- Não é o que diz o livro. Veja bem meu filho, por que você não casou com nenhuma delas?
- São Pedro, nenhuma delas era material para casamento.
- É mesmo, nem essa aqui. - Ele apontou para um nome na página 13.244.
- Chata demais.
- E essa aqui?
- Carente.
- Essa?
- Burra.
Meia hora de conversa depois...
- E essa aqui?
- Essa aí, São Pedro, até era legal, eu gostava dela!
- Então, por que não casaste com ela?
- Bem, digamos que seu eu tivesse casado com ela, mesmo com a sua autorização, eu não poderia entrar pelos portões do paraíso.
- E por que seria isso, meu filho?
- Por que meu chifre seria tão grande que não passaria pelo portão.
- É mesmo? Acho que vou guardar essa página para quando esta jovem passar por aqui. Vamos ao próximo item.
- Faça isso. Posso escolher o próximo tema? - Ele fez o gesto de sim com a cabeça. - Amizade, quero falar sobre meus amigos.
- Não é necessário, sua fama de bom amigo lhe precede.
- Beleza, um quesito a menos. Vamos ao próximo.
- Bebida!
- Eu aceito uma dose sim São Pedro, esse julgamento está me deixando com sede.
- Não, falemos de suas bebedeiras!
- Tudo bem. - Acho que isso vai demorar.
- Parece que você bebeu demais, meu filho!
- Tudo tem explicação São Pedro. Por exemplo, eu morava sozinho, numa cidade longe da minha família. Eu usava a bebida para esquecer dos meus problemas.
- Mas meu filho, e suas namoradas?
- Alguma dessas páginas tem as fotos delas?
- Acredito que sim. Deixe-me ver. Aqui estão! Oh! Entendi o que você quis dizer.
- Pois então, para encarar essas criaturas, só levemente alcoolizado.
- Ou no seu caso, altamente.
- Isso é uma questão de ponto de vista.
- Tudo bem, passemos para o próximo item.
Vejo São Pedro folheando as páginas, percebo que ele parou próximo da página que falava de família. Ele leu a página e olhou para mim de olhos arregalados. No fundo eu já sabia qual era o próximo item. Ele falou, e sua voz ecoou por todo céu:
- FORNICAÇÃO!
Fo-deu!
- Muita coisa escrita aí, santidade?
- 8.739 páginas. Esta parte possui até um sumário para facilitar a consulta.
- É mesmo? - A coisa está feia.
- É. Como conseguiste fazer tanto, em tão pouco tempo.
- Foi uma combinação péssima de eventos. - E muita força de vontade.
- E qual seria essa combinação?
- Juventude, álcool, estabilidade financeira e mulheres.
- Mas meu filho, isso não justifica!
- São Pedro, não pode ser tão ruim assim também.
- Tem um capítulo aqui de 30 páginas! Tens idéia do que pode ser?
- Carnaval, três anos atrás?
- Isso, mesmo! Vejo que sua memória continua boa. Você tem idéia de quantas mulheres da vida foram? Isso não é correto filho! E as suas namoradas?
- Elas nunca toparam fazer nada com essas meninas.
- Como é?
- Nada não, besteirinha.
- Meu filho, aqui diz que em um ano você gastou com o meretrício o triplo do PIB da Somália.
- Essas contas não devem estar certas. Deixe-me dar uma olhada.
Três horas depois.
- Parecem corretas sim. O contador aqui do céu deve ser muito bom mesmo.
- Aqui diz que você encheu um barco com meretrizes e saiu para velejar por um fim de semana.
- Isso é uma inverdade!
- Estás dizendo que não encheste um barco com prostitutas para festejar?
- Não! Estou dizendo que não velejamos. Tinha uma menina que não estava se sentindo bem.
- Insolente! Como ousas utilizar este tom de voz em plena entrada do paraíso.
- Desculpa. Acho que me empolguei um pouco.
- Muito bem. Acho que já vi o suficiente. - Mas ainda devem faltar umas 2.000 páginas!
São Pedro colocou-se atrás de um enorme púlpito que havia ao lado dos portões do céu. Fechou o livro da minha vida. Puxou um martelo e disse com uma voz grave.
- Estando ciente do que fizeste em tua vida. Ponderando as boas ações e os teus desvios de caráter, eu São Pedro, com os poderes que me foram concedidos...
Fechei os olhos, parece que eu já ouvia os gritos, o cheiro de churrasco e o fogo queimando minha pele. Acabou.
- Eu te considero, ACORDA!
- Acorda?
- Acorda!
Abri os olhos.
- Seis injeções de glicose! Parabéns rapaz, você é o recordista do dia.
- Recordista do dia? Onde eu estou?
- Em uma emergência hospitalar! Você estava em coma alcoólico quando chegou.
- Rapaz, que coisa louca. Doutor, eu fiquei quanto tempo apagado?
- Umas três horas. Como se sente?
- Um pouco de dor na consciência.
- Isso acontece, deve ser a ressaca. Mas me conta, como é ficar em coma?
- Eu não me lembro muito bem. Lembro-me de um julgamento.
- E como foi esse julgamento?
- Algo sobre meu passado. Mas quer saber de uma coisa, de repente me bateu uma vontade de ir num bordel.
Abro os olhos. Não estou em casa. Onde eu fui parar? Acordei na rua outra vez? Aqui parece até um daqueles condomínios de luxo, tem até um portão dourado ali na frente. Acho que vou ali na guarita, de repente o cara tem o telefone de um táxi.
- Bom dia meu nobre!
- Bom dia meu filho! Seja bem-vindo ao...
- Eu sei, eu sei. Olha só, eu estou com um pouco de pressa. O senhor poderia me dizer se existe algum ponto de táxi nas redondezas?
- Você sabe com quem está falando, meu filho? O que você diz de um senhor de barba, na frente de um portão com uma chave no pescoço?
- Papai Noel porteiro?
- Não és muito de religião, eu presumo.
- Na verdade, não senhor. Mas sou um grande adepto de dois santos.
- É mesmo? Que bom! E, quais seriam esses santos?
Comecei a reparar que o dia estava meio enevoado, estranho para essa época do ano.
- São Duíche quando eu estou com fome e São Risal quando eu estou de ressaca.
- Vejo que seu senso de humor não se alterou depois de tudo o que aconteceu.
- Como assim? O que aconteceu? - Eu devo ter feito alguma besteira outra vez.
O bom velhinho saiu de trás da guarita, parou do meu lado, colocou a mão no meu ombro e disse:
- Você morreu, meu filho.
- Morri? - Agora fodeu! Será que ele consegue ler meus pensamentos?
- Morreu, você bebeu demais na festa ontem. Seu organismo não aguentou.
- Eu sabia que um dia a bebida ia me matar, mas eu sempre achei que seria um caminhão de cerveja.
- E agora? Já sabes com quem está falando?
- São Pedro, certo?
- Exato. E sabes o que nós vamos fazer agora não é?
- Vamos ver. Está na hora de pagar pelas besteiras que eu fiz certo?
- Certo! Deixe-me pegar seu livro da vida. Aguarde um pouco.
- Beleza São Pedro, prometo que não vou a lugar nenhum.
- Que bom que ainda guardaste teu bom humor. - Espero mantê-lo após o julgamento.
Enquanto São Pedro ia pegar a minha passagem para o inferno, resolvi dar uma olhada em volta. Realmente tinha muita névoa, algo estava errado. Cara, os portões do céu são grandes. Ouro maciço, benza Deus! Opa, blasfemei! Merda, eu sou um caso perdido mesmo. Deixa eu tentar ver o que tem ali dentro. Olha, anjinhas ruivas! Nossa, que anjinhas! Droga, nem no céu eu consigo parar de pensar besteira. Estava tentando ver novamente as anjinhas quando aquela voz grave falou:
- Venha meu filho, está na hora de vermos como foi sua vida. - Será que eu tenho direito à um advogado?
- Sim senhor. Esse livro aí é todo meu? - Parece até a lista telefônica!
- Sim filho. Então, por onde queres começar. - Essa é mole.
- Família!
- Hum! Deixa eu procurar aqui na letra F. Felicidade, folia, fornicação, - quando São Pedro falou essa última palavra senti um frio na espinha, foi quando reparei que não tinha espinha. - aqui, Família.
- Então São Pedro, o que diz aí nos autos do processo?
- Aonde meu filho?
- No livro.
- Claro, claro. Aqui diz que você foi um bom filho, bom irmão, bom neto, bom sobrinho. Mas não fala nada de filhos ou esposa.
- Não deu tempo São Pedro.
- Já que estamos no tocando assunto falemos de suas mulheres. - Danou-se.
- Aqui, meu filho, diz que você teve muitas namoradas.
- Isso é uma meia-verdade São Pedro.
- Não é o que diz o livro. Veja bem meu filho, por que você não casou com nenhuma delas?
- São Pedro, nenhuma delas era material para casamento.
- É mesmo, nem essa aqui. - Ele apontou para um nome na página 13.244.
- Chata demais.
- E essa aqui?
- Carente.
- Essa?
- Burra.
Meia hora de conversa depois...
- E essa aqui?
- Essa aí, São Pedro, até era legal, eu gostava dela!
- Então, por que não casaste com ela?
- Bem, digamos que seu eu tivesse casado com ela, mesmo com a sua autorização, eu não poderia entrar pelos portões do paraíso.
- E por que seria isso, meu filho?
- Por que meu chifre seria tão grande que não passaria pelo portão.
- É mesmo? Acho que vou guardar essa página para quando esta jovem passar por aqui. Vamos ao próximo item.
- Faça isso. Posso escolher o próximo tema? - Ele fez o gesto de sim com a cabeça. - Amizade, quero falar sobre meus amigos.
- Não é necessário, sua fama de bom amigo lhe precede.
- Beleza, um quesito a menos. Vamos ao próximo.
- Bebida!
- Eu aceito uma dose sim São Pedro, esse julgamento está me deixando com sede.
- Não, falemos de suas bebedeiras!
- Tudo bem. - Acho que isso vai demorar.
- Parece que você bebeu demais, meu filho!
- Tudo tem explicação São Pedro. Por exemplo, eu morava sozinho, numa cidade longe da minha família. Eu usava a bebida para esquecer dos meus problemas.
- Mas meu filho, e suas namoradas?
- Alguma dessas páginas tem as fotos delas?
- Acredito que sim. Deixe-me ver. Aqui estão! Oh! Entendi o que você quis dizer.
- Pois então, para encarar essas criaturas, só levemente alcoolizado.
- Ou no seu caso, altamente.
- Isso é uma questão de ponto de vista.
- Tudo bem, passemos para o próximo item.
Vejo São Pedro folheando as páginas, percebo que ele parou próximo da página que falava de família. Ele leu a página e olhou para mim de olhos arregalados. No fundo eu já sabia qual era o próximo item. Ele falou, e sua voz ecoou por todo céu:
- FORNICAÇÃO!
Fo-deu!
- Muita coisa escrita aí, santidade?
- 8.739 páginas. Esta parte possui até um sumário para facilitar a consulta.
- É mesmo? - A coisa está feia.
- É. Como conseguiste fazer tanto, em tão pouco tempo.
- Foi uma combinação péssima de eventos. - E muita força de vontade.
- E qual seria essa combinação?
- Juventude, álcool, estabilidade financeira e mulheres.
- Mas meu filho, isso não justifica!
- São Pedro, não pode ser tão ruim assim também.
- Tem um capítulo aqui de 30 páginas! Tens idéia do que pode ser?
- Carnaval, três anos atrás?
- Isso, mesmo! Vejo que sua memória continua boa. Você tem idéia de quantas mulheres da vida foram? Isso não é correto filho! E as suas namoradas?
- Elas nunca toparam fazer nada com essas meninas.
- Como é?
- Nada não, besteirinha.
- Meu filho, aqui diz que em um ano você gastou com o meretrício o triplo do PIB da Somália.
- Essas contas não devem estar certas. Deixe-me dar uma olhada.
Três horas depois.
- Parecem corretas sim. O contador aqui do céu deve ser muito bom mesmo.
- Aqui diz que você encheu um barco com meretrizes e saiu para velejar por um fim de semana.
- Isso é uma inverdade!
- Estás dizendo que não encheste um barco com prostitutas para festejar?
- Não! Estou dizendo que não velejamos. Tinha uma menina que não estava se sentindo bem.
- Insolente! Como ousas utilizar este tom de voz em plena entrada do paraíso.
- Desculpa. Acho que me empolguei um pouco.
- Muito bem. Acho que já vi o suficiente. - Mas ainda devem faltar umas 2.000 páginas!
São Pedro colocou-se atrás de um enorme púlpito que havia ao lado dos portões do céu. Fechou o livro da minha vida. Puxou um martelo e disse com uma voz grave.
- Estando ciente do que fizeste em tua vida. Ponderando as boas ações e os teus desvios de caráter, eu São Pedro, com os poderes que me foram concedidos...
Fechei os olhos, parece que eu já ouvia os gritos, o cheiro de churrasco e o fogo queimando minha pele. Acabou.
- Eu te considero, ACORDA!
- Acorda?
- Acorda!
Abri os olhos.
- Seis injeções de glicose! Parabéns rapaz, você é o recordista do dia.
- Recordista do dia? Onde eu estou?
- Em uma emergência hospitalar! Você estava em coma alcoólico quando chegou.
- Rapaz, que coisa louca. Doutor, eu fiquei quanto tempo apagado?
- Umas três horas. Como se sente?
- Um pouco de dor na consciência.
- Isso acontece, deve ser a ressaca. Mas me conta, como é ficar em coma?
- Eu não me lembro muito bem. Lembro-me de um julgamento.
- E como foi esse julgamento?
- Algo sobre meu passado. Mas quer saber de uma coisa, de repente me bateu uma vontade de ir num bordel.



