Não estava acostumado a andar de metro, mas o que eu podia fazer? Estava voltando pro serviço depois do meu almoço. Almoço? Usei minhas duas horinhas para tirar meu passaporte naquela maldita segunda-feira chuvosa. Por que diabos eu fui fazer esse documento tão longe?
A ida até que foi tranqüila. Sai na hora do almoço. Só a viagem no metro levava 45 minutos, isso apenas um trecho. Feliz da vida, cheguei ao meu destino final, o posto de atendimento da Polícia Federal!
— Puta que o pariu! — repeti como se fosse um mantra.
— Algum problema meu filho? — me perguntou uma simpática senhora.
— O posto de atendimento da PF está fechado!
— Sim meu filho, hoje é dia do servidor público. Todos estão aproveitando o feriadão!
— Não acredito que eu perdi meu almoço vindo até aqui pra encontrar este posto fechado! — chutei a porta de entrada.
Nesse momento, com a serenidade que só os anos de labuta, sofrimento e aprendizagem, a velha senhora coloca sua mão no meu ombro, como que para me consolar e diz:
— Bem feito. Quem mandou ser ignorante e não ler o jornal! Pessoas como você é que deixam o país do jeito que está!
Após falar isso ela continuou sua longa caminhada pela rua. Agora veja você! Que velha escrota! Eu perco meu almoço, faço uma puta viagem em vão pra pegar meu passaporte e ainda tenho que ouvir uma velha louca falar que o país esta na merda por minha causa!
— Velha safada! — gritei, mas eu acho que além de louca a velha era surda.
Me recompus. As pessoas na rua começaram a me olhar estranho depois que eu comecei a gritar com aquela senhora. Queria ver se eles tivessem feito a viagem que eu fiz, se eles estariam me olhando assim.
Resolvi tomar um táxi até o metro. Sim, tive que pegar um táxi da estação do metro até o posto, pois a distância era longa. E onde eu encontrava táxi? Em lugar nenhum! Resolvi pegar o ônibus. Ah, ônibus! Que sensação ótima era estar no ônibus. Aquele odor, que só se encontra nas suaves manhãs dos aterros sanitários.
Finalmente cheguei na estação. Passei pela roleta e estava aguardando a composição chegar. Não demorou muito. Entrei no vagão. Não estava cheio, mas também não tinha lugares para eu me sentar. Resolvi escutar um pouco de música, afinal, precisava me acalmar.
A viagem transcorria na mais perfeita paz. Um simpático senhor estava ao meu lado lendo o caderno de esportes do jornal. Pelas batidas que ele dava no jornal, acho que o time dele não ganhou. Uma senhora estava sentada com sua filha, que devia ter uns 7 anos, discutindo com ela as notas que a menina tirava no colégio. Naquele instante a composição havia chegado numa estação.
— Desembarque pelo lado direito — cheguei a ouvir o condutor falando, apesar da música alta em meus ouvidos.
Na estação, como de praxe no horário de retorno ao trabalho, muitas pessoas entraram no vagão. Uma em especial me chamou a atenção. Tratava-se de uma senhora, já com seus 60 anos e que tinha uma grande dificuldade para andar. Fiquei penalizado, pois vi que os assentos destinados a idosos estavam ocupados por pessoas igualmente idosas e uma gestante.
As portas já estavam se fechando quando a gestante, num gesto de cidadania se levantou para que a senhora sentasse. A senhora sentou. Então, de repente, esta mesma senhora virou-se para o banco de trás, onde estavam mãe e filha discutindo o desempenho escolar da menina, e perguntou:
— Com licença?
— Pois não — a mulher respondeu num tom rude.
— A sua filha não poderia sentar no seu colo para que essa jovem grávida possa se sentar? — a senhora perguntou.
— Não — respondeu a mulher — minha filha pagou a mesma passagem que a senhora e que a jovem. Ela tem todo o direito de viajar sentada.
Eu sei que a mulher falou tão alto, que um grupo de jovens estudantes que conversavam interromperam o papo para ouvir a discussão. Era tudo o que faltava. Tudo tinha dado errado e eu ainda tinha que ver uma louca dando ataque no metro! Eu mereço.
— Mas a questão não é dinheiro — a senhora voltou a responder — é cidadania. Sua filha pode muito bem viajar no seu colo, cedendo lugar para a jovem!
— Não! Ela pagou a passagem que nem todo mundo aqui — ela fez um gesto apontando para todos — e vai viajar sentada.
— Deixa pra lá — respondeu a gestante — minha estação não demora a chegar.
— Tudo bem — respondeu a senhora virando para a mulher no banco de trás — Mas por causa de pessoas como à senhora que esse país está assim.
Porra! Era a segunda vez que eu ouvia uma senhora falando isso! Comecei a achar que além do dia do servidor público, era também o dia dos velhos reclamarem do país. Eu não me importei dessa vez, já que o papo não era comigo, mas a mulher... Notei uma veia surgindo na testa dela. Lembro de ter pensado: “Agora fodeu”.
— Eu faço um país pior! Minha filha pagou a passagem igual a todos aqui!
— E a educação? Ficou aonde? — gritou um homem no fundo do vagão e a confusão se generalizou!
— Eu paguei a passagem da minha filha! Ela tem direito! — nesse momento a menina começou a chorar.
— Você está vendendo a educação da sua filha pelo preço de uma passagem! — gritou uma mulher na parte da frente do vagão.
— Eu não estou vendendo nada! Eu paguei a passagem! Ela tem direito! — acho que a mulher não sabia o que dizer e resolveu repetir sempre a mesma frase. Notei que os estudantes estavam rindo copiosamente da situação.
— Deixa ela sentar — agora gritavam em coro os passageiros.
— Não! Ela tem direitos! — a veia ficava cada vez maior.
— Mal educada! Mal educada! — os estudantes resolveram tomar partido na briga.
— Vocês calem a boca! Vocês nem passagem pagaram! — eu estava esperando a hora que a veia ia começar a gritar junto com a mulher!
— Pi-ra-nha! Pi-ra-nha! Pi-ra-nha! — a molecada não perdoou.
E o que começou com uma pequena discussão sobre um lugar pra sentar tomou proporções homéricas! Todos gritando para que deixassem a grávida sentar e a louca da veia na testa gritando: “Ela pagou!”. No meio da confusão que ficou instalada, o senhor que lia o jornal do meu lado, em um momento em que a sapiência tomou conta de seu ser, disse em voz baixa, para que só eu pudesse ouvir:
— É um péssimo momento para se estar sóbrio.
— Concordo — respondi guardando meu tocador de músicas.
— Por que ela não deixa a grávida sentar? O que aconteceu com o povo desse país?
As palavras daquele senhor mexeram comigo. Lembrei-me da velha safada que disse que o país estava daquele jeito por minha causa que eu resolvi tomar uma atitude.
— Chega! — gritei, e todos pararam para prestar atenção em mim.
— Mas minha filha...
— Eu sei! A senhora já repetiu 347 vezes isso!
— Iiiiiiaaaaaaaaeeeeeee — gritou um dos estudantes.
— Parem com isso! — gritou a senhora. Sua filha chorava cada vez mais.
— Eu tenho uma proposta para fazer para a senhora — eu disse.
Nesse momento, todos dentro da composição resolveram parar para ouvir minha proposta. Os estudantes se calaram, a velha e a gestante estavam de olhos arregalados e o velho ao meu lado guardou o jornal.
— Proposta? Quem você pensa que é para fazer uma proposta para mim?
— Me escute. Eu lhe dou uma nota de cinco, se a senhora colocar sua filha no colo e deixar essa jovem gestante sentar.
— Aceita! Aceita! — gritavam os estudantes
— Não aceito — disse a senhora — você acha que eu vou vender o conforto da minha filha por uma nota de cinco?
— Eu ainda não acabei! Eu lhe dou uma nota de 20 se a senhora ceder o lugar da sua filha e ficar calada até chegarmos a sua estação.
— Aceita logo, sua louca! — veio uma voz do final do vagão!
— Você pensa que pode comprar meu silêncio? — não sei se quem falou isso foi a senhora ou a veia na testa dela.
Percebi que o trem começava a desacelerar. Ele estava chegando na próxima estação.
— Bom, minha última oferta, se a senhora descer na próxima estação, nos dando o privilégio de sua ausência, a senhora ganhará uma nota de 50.
Puxei uma nota de 50 e mostrei para ela. A tensão tomou conta do vagão. A senhora e a filha se calaram. O velho ao meu lado olhava a nota. Um dos estudantes já puxava um celular para fotografar a cena. A composição parou na estação.
— Então? Vai sair com esta nota e nos deixar em paz, ou vai ficar aqui atrapalhando o silêncio da nossa viagem?
As portas do vagão se abriram. A senhora arregalava os olhos para aquela nota de 50. Os estudantes falavam baixo. A tensão era alta. “Pega a nota e vai embora”, dessa vez a voz veio do meio do vagão.
— As portas vão fechar! É agora ou nunca! — eu disse.
O sino indicando o fechamento das portas soou. Como uma flecha a senhora pegou o braço da filha com uma das mãos e a nota de 50 com a outra mão e saiu da composição. Ao ver que estavam livres, os passageiros começaram a gritar:
— Até nunca mais!
— Tchauzinho sua louca!
— Vai pela sombra, Piranha!
Essa última frase incitou os estudantes, que começaram a gritar em coro novamente:
— Pi-ra-nha! Pi-ra-nha! Pi-ra-nha! Pi-ra-nha!
A composição partiu da estação, mas a festa no vagão continuou. A jovem grávida se sentou no lugar da menina. No lugar da louca sentou o senhor que estava ao meu lado! Todos vieram me cumprimentar. Os estudantes, entusiasmados, gritavam como uma torcida organizada:
— Oo! A piranha vazou! A piranha vazou!.
No meio daquela festa, a senhora, aquela que ficou no lugar da grávida e iniciou a balburdia, levantou-se. Me cumprimentou e disse bem baixinho para que apenas eu pudesse ouvir:
— Se o país tivesse mais jovens como você, certamente seríamos o melhor país do mundo. Obrigado! — e terminou dando um beijo na minha bochecha.
Pronto. Ganhei o dia! E só me custou uma notinha de 50!
