Confesso para todos vocês, eu tenho o pior emprego do mundo. Sim eu sou um goleiro. Não que ser goleiro seja a pior profissão do mundo. O problema é o time com quem você trabalha.
Meu time não era ruim, longe disso. Para ficar ruim ainda tínhamos que treinar muito. E vocês já pensaram quem é que sempre sofre em um time ruim? Vocês já viram um atacante levar uma bolada no rosto? Estou falando de bola de futsal! Pesada!
Enfim, nosso time de futsal (o antigo futebol de salão) participava de um torneio patrocinado pela nossa empresa. Jogávamos a segunda divisão, não por sermos ruins, mas por ser nosso primeiro ano de participação. Todos no time estavam muito animados antes do torneio! Chegamos a rodada final como um dos favoritos! Favoritos ao último lugar da competição.
Duas derrotas e um empate (aproveitamento de 11%). A última rodada jogaríamos apenas para cumprir tabela. O adversário? Um dos líderes invictos do grupo. Isso não podia dar certo.
O César, o Tales e eu chegamos atrasados para o embate e encontramos com o Mario na entrada do ginásio. O jogo iniciaria as sete da noite, mas a equipe só conseguiu entrar em quadra as sete e dez. Eu esperava já encontrar metade da equipe em quadra. Encontrei um único jogador, o Cordeiro, que pelo menos já estava vestido. Assim que nos viu ele nos saldou:
– Estamos perdidos! Só nós vamos jogar! Não temos nenhum reserva!
– Não veio ninguém mais? O Marcelo, o Ernesto, o Lívio, o Denis? Nada deles? – perguntei porque se não tivéssemos o mínimo de jogadores, seríamos banidos do torneio, inclusive para o ano seguinte.
– Não cara! Eu inclusive tava na arquibancada esperando vocês e ouvi o pessoal do outro time dizendo que se eles nos vencerem por 15 gols de vantagem ficam na liderança! – o Cordeiro parecia assustado.
– Quinze gols! – o César também parecia assutado.
– Galera é o seguinte. O jogo já vai começar. Vamos armar uma retranca, jogar fechado e torcer para eles só começarem a fazer gol depois de cansarmos. O bom é que sem ninguém no banco, não tem esporro em quem esta quadra – disse o Tales.
Lá estávamos nós, aguardando o início da partida. Eu no gol. O Tales, que também era goleiro, jogando improvisado na defesa. Junto com ele o Cordeiro, que ainda não estava nas suas melhores condições físicas. Na frente, mas não tão na frente assim, Mario e César.
O jogo começou. Logo no começo, o time adversário começou pressionando, mas estávamos aguentando bem. Não atacávamos, mas o time adversário não conseguia chutar. Quando de repente algo estranho aconteceu.
Peguei a bola para bater um tiro de meta. Olhei para o meio campo e vi o Mario sozinho com um marcador. Joguei a bola na direção dele. Ele se livrou da marcação e chutou.
– É!!!!! – o Cordeiro gritou.
– Gol porra! – o Tales completou. Vale ressaltar que o Tales estava gritando para
– Gol? Estamos ganhando? – o César parecia não acreditar!
– Vamos lá pessoal! Não vamos perder de zero! – eu gritei de otimismo.
Tomamos conta do jogo, porém o que mais temíamos aconteceu. O time cansou. Lembro de ter perguntado para o árbitro quanto tempo faltava para acabar o primeiro tempo.
– 15 minutos? Só jogamos 5 minutos? – parecia que o jogo era em La Paz, na altitude, todos no time estão sem ar.
– Vamos pedir tempo com 10 minutos – o Mario já tinha acertado isso com o árbitro.
O jogo continuou rolando. Alguns minutos após minha conversa com o juiz, fizemos mais um gol. O César recebeu no meio e chutou sem ângulo. Nenhum dos 3 espectadores acreditava no que estava acontecendo.
Aos dez minutos de jogo pedimos tempo. Tínhamos dois minutinhos para tomar um ar. Passamos um minuto respirando e antes de alguém falar:
– Galera, agora os caras vão virar, mas fizemos bonito – disse o sempre otimista Cordeiro.
– Vamos segurar o jogo – disse o ofegante Mario.
Voltamos à quadra. Alguns minutos após esse retorno, num escanteio o goleiro deles marcou um gol. Sim, goleiro deles, algum problema?
Com todos do time mortos, falei pro pessoal se poupar. Num contra-ataque rápido o Tales resolveu lançar uma bola pro Cordeiro. Que pena eu senti do Cordeiro. A bola correndo e ele atrás. Parecia uma cena de “Carruagens de Fogo”. Ele correndo em câmera lenta e o resto do time gritando: “Não! Esquece a bola!”.
Enfim, o primeiro tempo já ia terminando e, Deus sabe como conseguimos fazer mais um gol, graças ao César.
Final do primeiro tempo: 3x1. Fomos para o banco de reservas. Pela primeira vez na competição ninguém falou no banco de reservas. Não porque estávamos jogando bem, e sim porque estávamos todos sem ar. Lembro de ter pensando nas discussões que o time tinha no intervalo e como isso atrapalhava a equipe. Pela primeira vez agradeci de não termos reserva naquela partida.
Voltamos para o segundo tempo. A tática era simples: Não desmaiar durante o segundo tempo. Nossa meta era jogar que nem a Argentina: Se alguém espirrar do nosso lado a gente cai sentindo lesão.
Logo no começo do segundo tempo, o time adversário, bem descansado (eles tinha 3 reservas para o jogo), fez seu segundo gol. Percebi que ali começaria o declínio da equipe.
Para a minha surpresa, três minutos após o gol, nós aumentamos o placar. O César, sempre num contra-ataque aumentou a nossa vantagem. Uma ponta de esperança surgiu. Mas o jogo ainda estava complicado. Todos estavam estafados. Em um determinado momento, lembro de ter defendido uma bola no pé do jogador adversário e ao levantar vi o Tales olhando para o cara e gritando:
– ÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉ!
– Gente boa, poupa teu fôlego que ainda faltam uns 15 minutos de jogo! – disse para ele.
– Relaxa. Estou apenas apelando para o emocional deles.
Alguns minutos depois desse papo o time deles reduziu o placar. Lance rápido, dois contra um, não tínhamos o que fazer. O placar marcava 4x3. Nesse momento o Mario virou e disse:
– Quando você pegar a bola, olha para mim. Eu vou apontar para onde você tem que jogar a bola. Fechado?
– Fechado! – respondi.
Não deu outra. Na jogada seguinte um jogador chutou fraco. Peguei a bola e vi o Mario marcado apontando para a direita. Não hesitei e joguei a bola. O Mario se livrou da marcação e chutou.
– Gol! – apenas o Tales gritou. Todos estavam completamente sem ar.
O placar marcava 5x3. Era a hora de segurar o jogo. O time adversário atacava de forma incisiva. Comemorávamos cada lateral que tínhamos em nosso favor. Era uma oportunidade única para descansarmos.
– Tempo! – Gritou o Mario.
E mais uma vez fomos para o banco tomar um ar. Dessa vez ninguém falou nada. Foi o minuto mais silencioso da partida.
No retorno a quadra, percebemos que a equipe adversária estava nervosa. Faltavam 10 minutos e eles tinha que atacar com força máxima. Foi num desses ataques que aconteceu o que pode ser descrito com um lance bizarro.
Ao cobrar no rebote de uma cobrança de escanteio, o camisa 9 do outro time deu um chute seco no canto. Defendi com o pé, mas a bola ainda estava muito forte. A bola esbarrou no pé do Mario, bateu em sua mão e antes dela cair ele chutou em direção ao gol. O goleiro adversário, aquele que fez o gol, estava adiantado, tentando marcar outro gol e só pode olhar para a bola entrando calmamente em seu gol. 6X3 para nosso time.
Um milagre estava ocorrendo. Mas ainda faltavam 8 minutos. Logo depois do nosso último gol, o time deles endoido. Todos vieram para o ataque! Eles conseguiram tirar dois gols de diferença. Um gol foi na sorte e outro numa “sapatada” de fora da área indefensável. O jogo estava 6x5 e ainda faltavam cinco minutos.
Foram os três minutos mais longos da história. Lembro que tivemos um lateral em nosso favor e antes de cobrar o Cordeiro veio falar comigo:
– Para onde eu mando essa bola cara?
– Mira no lugar mais difícil de pegar a bola e manda lá. Assim a gente ainda ganha um tempo.
E foi isso que ele fez. O César foi tentar pegar a bola pra facilitar, mas foi empurrado pelo goleiro e caiu no chão. O juiz não marcou nada. Ele sabia que o César caiu para ganhar tempo. Mas na saída de bola do time deles, defendi um chute de uma maneira não ortodoxa. A bola estourou nos meus “países baixos”. Fiquei no chão por quase um minuto antes de levantar. Quando olhei para a quadra, todos estavam abaixados, respirando.
E assim o jogo seguiu. O time adversário atacando impiedosamente, até faltarem 30 segundos para o fim da partida.
Lancei uma bola para frente. Já não tinha ninguém mais lá, mas joguei para fazermos cera. O goleiro deles lançou uma bola no pé do seu pivô. Ele armou para o chute. Mas nates de chutar, o Mario cometeu uma falta nele. Nossa única falta no jogo. Eles tentaram bater rápido, mas o César ficou na frente da bola para impedir a cobrança.
PIIIIIIIII! Apito final. Todos os jogadores do nosso time foram ao chão. Ninguém comemorou porque nos faltava ar para gritar. A galera na arquibancada que já aguardava o jogo seguinte gritava nossos nomes!
Só conseguimos comemorar a vitória dez minutos após o término da partida. Conseguimos transformar a adversidade em vitória, o cansaço em fôlego, o álcool em água (na comemoração no boteco). Foi assim que cinco cachaceiros de marca maior, se tornaram heróis da maior batalha do século! Ao resto do time, resto do time, sobrou o consolo de saber que participaram de uma equipe vitoriosa, mesmo sem provar o sabor da vitória.

Um comentário:
Texto novo q eh bom, necas, ne? Porra, esse eh d 2010! Quero contos novos, breaco!
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